O Príncipe Moderno de Antônio Gramsci

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O Príncipe Moderno de Antônio Gramsci

Mensagem por Lewis K. em Qui 15 Set 2011, 21:15

Partido como “moderno Príncipe”

Aldo Tortorella



O Príncipe de Maquiavel não é visto por Gramsci apenas como primeira expressão completa da ciência da política. Ele sublinha, naturalmente, a função original de Maquiavel: aquele que, em primeiro lugar, separa a análise da política daquela da religião e da moral e se esforça por especificar as leis universais e gerais da obra de todos os grandes personagens que fizeram política. Mas Gramsci também sublinha que o Príncipe deve ser lido não só como um tratado de ciência da política (ainda que como o tratado fundador), mas também como um texto político historicamente concreto, voltado — segundo a intenção do autor — para um objetivo concreto: ou seja, o de interpelar a “classe revolucionária da época, o ‘povo’ e a ‘nação’ italiana, a democracia urbana que gera a partir de si os Savonarola e os Pier Soderini [...]” (CC, v. 3, p. 58). Um texto, pois, de “caráter essencialmente revolucionário”, tal como a “filosofia da práxis”, também destinada a falar à nova classe surgida no interior das novas relações de produção para orientar e guiar seus esforços.
Estes esforços não poderiam ser coroados por nenhum resultado se um “moderno Príncipe” (como nova teoria da política) não fosse escrito, e um “moderno Príncipe” (como ator da história) não fosse constituído nem tomasse seu lugar na realidade concreta do tempo presente: um “moderno Príncipe”, que só pode ser o novo sujeito coletivo já historicamente afirmado, ou seja, o partido político.

A teoria a ser escrita deve tratar do próprio nascimento e da possibilidade, a partir de um reexame histórico que vá às raízes das vicissitudes nacionais, da constituição de uma “vontade coletiva” (a vontade entendida como “consciência operosa da necessidade histórica, como protagonista de um drama histórico real e efetivo”), bem como das razões dos seus fracassos, das condições da sua possível afirmação no embate concreto entre as classes. E, desta teoria do “moderno Príncipe”, a segunda parte deverá tratar da “questão de uma reforma intelectual e moral”, de que o novo protagonista da história deve se tornar o protagonista (CC, v. 3, p. 18).

Assim, o partido cujo perfil Gramsci delineia tem uma tarefa altíssima, política e moralmente. Daí deriva uma concepção que tende a fazer do “moderno Príncipe” um sujeito que pode propor-se como absoluto: “O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, uma vez que seu desenvolvimento significa de fato que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe e serve ou para aumentar seu poder ou para opor-se a ele” (CC, v. 3, p. 19).

Esta posição de Gramsci não pode ser separada do contexto histórico em que ele vive e luta, estando no fundo de um cárcere, depois de uma dramática derrota do movimento operário e da democracia. Sua reflexão se desenvolve em oposição a uma força totalitária, que totalitariamente expressa uma dura e impiedosa tirania de classe recoberta de ideologia: o novo e “moderno Príncipe” — ou seja, o partido da transformação socialista — não podia se apresentar na arena daquela terrível luta com certezas menores. Ainda mais que falava unicamente em nome de uma esperança.

Mas, para uma avaliação correta desta ênfase totalizante, também se deve recordar que, em Gramsci, esta visão do partido não é a de uma organização burocrática ou de um instrumento de poder, mas a de uma força ideal destinada a realizar aquela “reforma intelectual e moral”, que tem na reforma econômica da sociedade apenas o “modo concreto de se manifestar”. O “moderno Príncipe”, antes, justamente porque realiza aquela reforma intelectual e moral, historicizando a realidade e os valores — e historicizando também a si mesmo —, “torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume” (Ib.).

Portanto, esta concepção do partido em Gramsci não pode ser reduzida e banalizada — como se fez —, como se constituísse a imitação ou o eco daquilo que simultaneamente ocorria na URSS e do papel que nela conquistava o partido. No entanto, era uma concepção que devia ser superada; o que já acontece em Togliatti, com a idéia do “partido novo”, ao qual se adere em base programática. O laicismo moderno e a laicização integral, que Gramsci considerava como finalidade essencial, terá necessidade de um partido comunista que, sem nada perder do próprio esforço ideal e moral, saiba considerar-se como um sujeito entre os demais: capaz de lutar pelas próprias convicções e pelos próprios programas sem ignorar as razões dos outros.
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Lewis K.

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Re: O Príncipe Moderno de Antônio Gramsci

Mensagem por Lewis K. em Qui 15 Set 2011, 21:15



Última edição por Karol Souza em Dom 19 Ago 2012, 22:49, editado 2 vez(es)
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Re: O Príncipe Moderno de Antônio Gramsci

Mensagem por Lewis K. em Dom 19 Ago 2012, 22:16

Moderno Príncipe: Em sua teoria do partido político de classe operária, Gramsci se inspira em O Príncipe de Maquiavel, a esse partido, Gramsci dá o nome de Moderno Príncipe. Agente da vontade coletiva transformadora, não pode ser mais encarnado por um indivíduo. Nas sociedades mais modernas, as funções que Maquiavel atribuiu a uma pessoa singular, cabe a um organismo social, o partido político. A tarefa do Moderno Príncipe é superar os resíduos corporativos e juntar todos os segmentos da sociedade para a formação de uma vontade coletiva nacional-popular, ou seja, de um grau de consciência capaz de permitir uma iniciativa política.
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Lewis K.

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Re: O Príncipe Moderno de Antônio Gramsci

Mensagem por Lewis K. em Dom 19 Ago 2012, 22:17



Gramsci

Érika Zuza, Luzigrácia Rocha,
Karla Pereira e Janaína Almeida (*).
HISTÓRICO

Antônio Gramsci nasceu em 1891, em Ales, na ilha da Sardegna, um dos lugares mais pobres e atrasados da Itália. Durante sua infância, além de sofrer a exclusão social por ser pobre, também, sentiu na pele o que é ser excluído por deficiência física, pois, aos quatro anos de idade, sofreu uma queda que o deixou corcunda. Ao longo de sua juventude, Gramsci percebeu que as desigualdades sociais dominam a sociedade em que vive, e que é preciso uma ideologia que modifique este quadro, e dê a classe social marginalizada força para participar das decisões sociais.

O contato com o socialismo começou muito cedo, quando ainda jovem, recebia de seu irmão periódicos do jornal Avanti! Do partido socialista italiano, no qual trabalharia como jornalista mais tarde. Gramsci também participava de grupos juvenis socialistas onde eram discutidos os problemas sociais e econômicos da Sardegna. Em 1911, graças a uma bolsa de estudos ganha em um concurso, ele ingressa na Universidade de Turim, onde cursa, parcialmente, a Faculdade de Letras e Filosofia.

Em 1915, passa a empenhar-se no Jornalismo militante, sua atividade jornalística chama a atenção não só pela qualidade do texto, como também, pelo trabalho de pesquisa cultural. Gramsci acreditava que toda revolução deveria ser precedida por um trabalho de difusão de ideologias para que o povo aprendesse e tivesse consciência do que poderia ser mudado. Tanto que em 1919, quando a Itália passava por problemas sociais, ele e um grupo de intelectuais publicaram o jornal L’ordine Nuovo que significa A nova ordem, esse periódico pretendia ser tanto um instrumento de investigação cultural quanto um órgão de luta política.

Embora, já fosse integrante do PSI, Gramsci não concordava, diretamente, com as principais correntes ideológicas do partido: os marximalistas e os reformistas. Os marximalistas acreditavam que a revolução proletária se daria, naturalmente, através do desenvolvimento econômico que aumentaria as diferenças, entre as classes sociais e causaria um colapso no capitalismo. E que, enquanto isso, caberia ao proletariado fortalecer suas organizações e esperar o grande dia. Já os reformistas, aceitavam as propostas da classe dominante, mas faziam divulgação dos seus ideais, acreditavam que, um dia, o socialismo chegaria pela própria necessidade da sociedade. Diante deste dualismo, Gramsci não se sentiu à vontade e propôs uma Associação Socialista da Cultura, que iria, segundo ele, completar a frente da luta operária, mas o partido não aceitou e Gramsci montou, com seus simpatizantes o Clube de Vida Moral, que fazia debates para instruir moral e, culturalmente os jovens socialistas.

Em 1921, o congresso do PSI, Gramsci foi o líder da ala radical e formou o Partido Comunista Italiano, onde foi secretário geral e deputado e onde fundou o jornal L’Unitá. Neste momento a ditadura fascista estava fortalecida e pouco tempo depois, o terrorismo se inicia e os participantes da oposição foram cassados e presos. Gramsci foi preso em 1926, e condenado a 20 anos de prisão.

As palavras de Gramsci causavam impacto, tanto que durante o processo que o levou à prisão, um promotor chegou a afirmar : “Devemos inutilizar por vinte anos esse cérebro perigoso”. Mal sabia ele que os principais escritos de Gramsci foram feitos, justamente, na prisão (Cadernos do Cárcere). Foi feito com dificuldades já que ele foi submetido a um regime rigoroso, com restrição de leituras e só podendo escrever cartas e notas. Em 1933, os sintomas da tuberculose já estavam evidentes, e para não levarem a culpa pela sua morte, as autoridades fascistas libertaram Gramsci três dias antes de sua morte, já em 1937.

Vale salientar que a atualidade de Gramsci se deve, entre outras coisas, à publicação de seus escritos póstumos. Em 1947, é publicada a primeira edição das Cartas do Cárcere, tendo um enorme sucesso nos meios culturais. Gramsci é um pensador que nos permite estudá-lo em duas fases; a primeira mais idealista e direcionada, que vai até meados de 1920, na qual Gramsci trata dos problema mais próximos da sua realidade, como a exploração do camponês sulino pelos latifundiários e nortistas, a chamada teoria meridional e a dos conselhos de fábrica. Já a Segunda fase, que vai de 1920 até sua morte, mostra um Gramsci mais consciente da realidade de seu país, disposto a estudá-lo e lutar por uma maior liberdade intelectual. É nessa fase, que ele desenvolve as teorias do Estado Ampliado, Ocidente Versus Oriente, Moderno Príncipe e o Papel do Intelectual.

Devido a sua origem sulina, Gramsci estava mais familiarizado com os problemas daquela região. Foi, talvez, por isso. O primeiro a reconhecer e escrever sobre a situação camponesa de todo país, principalmente, a situação dos camponeses sulistas que sofriam com a expropriação da terra pelos latifundiários e a exploração das indústrias do norte. Por isso, Gramsci propôs a união dos camponeses com os intelectuais na criação de uma cooperativa que não só resistiria à exploração do norte como, também, competiria com as indústrias de lá.

Os Conselhos de Fábrica, defendidos por Gramsci, podem ser chamados de “embrião” do partido político defendido por ele. Gramsci era contra os sindicatos, por achar que estes não só tratam de trabalhadores específicos, o que fragmenta a classe operária, mas, também, por se deterem a questões salariais, ou seja, tratarem a força de trabalho como capital. Já os Conselhos de Fábrica, são compostos por um representante de cada setor da fábrica, trata o trabalhador como produtor, unidos em prol de melhorias coletivas. Ele acredita que o Estado Socialista deveria ser formado por vários conselhos de fábrica num conselho executivo central.

TEORIAS

Teoria Ampliada do Estado: Para Gramsci, o Estado é dividido em dois segmentos: Sociedade política (que compreende os aparelhos de coerção sob o controle das burocracias executivas e policial-militar) e Sociedade civil (que é o conjunto de organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão de ideologias e compreende o sistema escolar, as igrejas, os partidos políticos, os sindicatos, os meios de comunicação, etc.).

Gramsci acreditava que a “mudança” não poderia acontecer do “alto para baixo”. O socialismo só aconteceria de uma forma gradual e com a mobilização da sociedade civil, já que ela difunde a ideologia. Esse trabalho deve ser feito “transformando” a ideologia das massas. É a chamada crise da hegemonia, sendo possível, apenas, nas sociedades mais complexas, com alto grau de participação política organizada. Daí, o grande papel dos intelectuais.

Oriente X Ocidente: Gramsci procurou responder a causa do fracasso da revolução socialista, nos países ocidentais. Ele concluiu que isso se deveu às diferenças socio-culturais existentes entre esses países, pois, nos países orientais havia o predomínio do Estado-coerção, o que exigiu uma estratégia frontal, no qual Gramsci denominou: Guerra de movimento ou revolução popular. Que consiste na conquista do poder pela força, sendo necessário, nos países orientais, porque, lá, a sociedade civil era fraca, com reduzida influência sobre as massas. Já nos países ocidentais, a estratégia era diferente, ao contrário do que acontecia nos países orientais, nos ocidentais, a sociedade civil era forte, com elevada influência sobre as massas, reduzindo, a quase zero, a probabilidade das massas pegarem em armas para conquistar o poder. Dessa forma, era necessária uma revolução passiva ou Guerra de posições que é uma complexa luta por espaços e posições dentro do “aparelho” político, um movimento de recuos e avanços na conquista de cargos e alianças - o popular “comer pelas beiradas”- na missão de transformar a classe dirigente em classe dominante para que a própria massa a destitua do poder.

Moderno Príncipe: Em sua teoria do partido político de classe operária, Gramsci se inspira em O Príncipe de Maquiavel, a esse partido, Gramsci dá o nome de Moderno Príncipe. Agente da vontade coletiva transformadora, não pode ser mais encarnado por um indivíduo. Nas sociedades mais modernas, as funções que Maquiavel atribuiu a uma pessoa singular, cabe a um organismo social, o partido político. A tarefa do Moderno Príncipe é superar os resíduos corporativos e juntar todos os segmentos da sociedade para a formação de uma vontade coletiva nacional-popular, ou seja, de um grau de consciência capaz de permitir uma iniciativa política.

O Papel do Intelectual: Sem uma nova cultura, as classes subalternas continuarão sofrendo passivamente a hegemonia das velhas classes dominantes e não poderão se elevar à condição de classes dirigentes. Direção política, é, também, direção ideológica. Fazendo com que se crie uma nova cultura (nas massas), o Moderno Príncipe estará criando as condições para a hegemonia das classes subalternas, e sua vitória na guerra de posições pelo socialismo. Daí, a importância, também, do intelectual na construção do partido político.

Para Gramsci, os intelectuais se detêm às sua bases acadêmicas sem de fato conhecer as massas e sua cultura, por isso, são incapazes de apreender as reais necessidades da população. Dessa forma, criando, apenas, culturas superficiais, tornando quase impossível à massa o conhecimento de sua real condição política e a aceitação de uma nova ideologia – aí, está a necessidade e importância de se mesclar os intelectuais e os “pobres mortais” deste país.

CRÍTICA

Gramsci, mesmo com suas complexas teorias não ficou isento de críticas; o interessante é que as críticas nunca lhe foram dirigidas como um todo, mas por fases, épocas de sua vida. Uma delas, quando ainda estava em sua fase de maturação, é sobre seu caráter idealista que, na época, afastou-o de uma análise mais detalhada das transformações econômicas por que passava seu tempo. Seu Marxismo juvenil revelava-se impermeável à compreensão profunda da importância do momento econômico e não o fez enxergar algumas manobras políticas necessárias. O seu radicalismo do tudo ou nada o aproximou, perigosamente, da criticada passividade Maximalista.

A outra crítica a Gramsci é de Lênin, ao seu otimismo exagerado sobre a instauração da social-democracia na Itália, que julgava não precisar de muitos esforços. Lênin, ao contrário, acreditava ser necessário conhecer bem o inimigo para vencê-lo, inclusive, aliados mesmo que incertos e provisórios.

Outra é de não distinguir gnosicamente entre ciência e ideologia, entre conhecimento objetivo e consciência interessada, transformando todo conhecimento, até mesmo, o de ciências naturais em expressão de uma subjetividade de classe ou de grupo; ele equivale a uma objetivação histórica-social e objetiva natural, mostrando que não superou, plenamente, a teoria hegeniana, na qual, “toda realidade é espírito”.

E a que consideramos mais importante, feita pelo cientista político e psicanalista João Rêgo, que trata da extinção do Estado-coerção, absorvido pelo Estado-ético (sociedade civil), mas, esta era parte integrante do Estado ampliado, logo, não se pode falar de extinção do Estado, mas em uma reestruturação do Estado onde uma das partes foi atrofiada. E acrescenta: “Não estaria Gramsci incorrendo num erro fatal que perpassa todo o acervo do pensamento político socialista (e, portanto, também, pré-marxista) que é de superestimar a figura do homem como o bom sauvage rousseauniano, em vez de uma visão mais realista, ao nosso ver, do homem hobbesiano o homem é lobo do homem. Não seria o Estado-ético, apenas, conseqüência da projeção desse tipo ideal de homem? E, portanto, uma sociedade capaz de ser viável, apenas, na hipótese remota de ser composta por anjos e não por homens?”

E você, o que acha?

(*) são estudantes de comunicação da UFRN.

Fonte: http://jornalista.tripod.com/teoriapolitica/4.htm
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