Texto Modernidade

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Texto Modernidade

Mensagem por Lewis K. em Sab 02 Out 2010, 14:36

Considerada como a época do acesso do homem à maioridade, ao livre uso da razão e à conseqüente autonomia em relação aos entraves que o impedem de escolher e de seguir por si próprio o seu destino, a modernidade não é senão outra designação do Iluminismo. Os historiadores tendem a considerar o século XVIII como o século do Iluminismo. É, de fato, neste século, que ocorrem dois acontecimentos que indiciam transformações irreversíveis habitualmente associadas com a modernidade: a publicação da Enciclopédia de Diderot e d’Alembert e a Revolução Francesa (1789). A Enciclopédia consagrou de fato uma nova modalidade de saber, não fundado na autoridade política ou religiosa, mas numa comunidade de homens dotados de razão e por isso capazes de juízo crítico. A Revolução Francesa instituiu uma nova ordem política de homens livres, governados por uma Constituição, por uma norma fundada, não na vontade de um soberano, mas do povo.
Costumam ser definidos os seguintes fatores da modernidade: o desenvolvimento e intensificação das descobertas científica assim como a autonomização e a fragmentação das ciências, a partir de métodos de observação e de experimentação sistematicamente conduzidos, o incremento e a aceleração dos processos de invenção técnica, a invenção da imprensa de caracteres móveis, por Johannes Gensfleisch, mais conhecido por Gutenberg (1440), os ideais críticos do livre exame implementados pela Reforma e o movimento de reformulação do catolicismo, a partir do Concílio de Tento (1545-1549, 1551-1552, 1562-1563), o incremento das viagens marítimas que conduziram à descoberta dos povos do Novo Mundo, de que se destacam a descoberta da América, por Cristóvão Colombo (1492) e a descoberta do caminho marítimo para a Índia, por Vasco da Gama (1497).
Este recorte histórico da modernidade está, no entanto, longe de ser consensual. É que, por um lado, encontramos, desde os tempos mais remotos, inúmeras manifestações de modernidade e de atitudes iluministas, e, por outro lado, deparamo-nos ainda hoje, não obstante a generalização dos princípios iluministas, com situações de tirania, de coação física ou moral, que impedem o acesso à maioridade e à autonomia de uma grande parte dos nossos contemporâneos.
A modernidade começou, portanto, por ser um processo de paragem ou de estancamento do curso habitual e inconsiderado da experiência, quer no domínio físico quer nos domínios político, legal e moral.
Não devemos hoje confundir modernidade com os conceitos afins de modernismo e de modernização. A modernidade é uma modalidade da experiência marcada pela ruptura para com a tradição e ocorre sempre que os fundamentos e a legitimidade da experiência tradicional, dos seus valores e das suas normas, perdem a sua natureza indiscutível e deixam, por conseguinte, de se impor a todos com obrigatoriedade. Podemos dizer que a modernidade se instaura sempre que a experiência tradicional atinge o limite, o estado de an-arquia, no sentido etimológico deste termo, de algo que perdeu ou esqueceu o sentido originário, a arque, ou a memória da sua razão de ser. É porque o curso habitual da experiência perde o seu sentido fundador que a tradição passa a ser encarada como entrave à consciência desperta e razoável das coisas, exigindo, por isso, um novo processo de refundação. No seu começo, a modernidade associava numa mesma experiência refundadora o modernismo e a modernização. No entanto, à medida que a modernidade se foi generalizando e tornando princípio legitimador indiscutível da experiência, estes conceitos foram sendo autonomizados uns dos outros, acabando o modernismo e a modernização por esquecer os princípios da modernidade que estão na sua origem e lhes servem de fundamento e legitimação.
A modernidade é inevitavelmente uma experiência que retira da tradição o seu sentido e a sua razão de ser e que está destinada a tornar-se, por seu lado, também uma experiência tradicional, a partir do momento em que se impõe com caráter indiscutível. É que, a partir do momento em que o moderno se torna um imperativo, os novos modelos e as novas normas, mal sejam realizadas, exigem a sua ultrapassagem. Daí a natureza dissuasória do fundamento da modernidade, com a conseqüente emergência do indiferentismo ou a coincidência de todos os modelos e de todas as normas. É que, ao converter a diferença em norma, a modernidade corre o risco de produzir a norma da indiferença, fazendo equivaler todas as diferenças. É este paradoxo lógico da modernidade que está na origem atualmente da pós-modernidade, vivida ora de maneira irônica ora de maneira dramática.
A modernidade promove a procura de princípios explicativos racionais para os fenômenos da natureza e da cultura e de normas racionalmente fundadas para a política, para a ética e para a estética.
A nossa época caracteriza-se pela consciência aguda do esgotamento dos projetos, romântico e futurista, da modernidade e pela conseqüente indiferença perante os valores e as normas que os movimentos de vanguarda procuraram instaurar, ao longo do seu processo de implantação. Esta consciência da crise da modernidade pode ser entendida como o retorno do recalcado: através das atuais manifestações da pós-modernidade vislumbram-se as próprias formas tradicionais que retornam, por vezes, de maneira nostálgica.
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Lewis K.

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