Ética e Moral por Paulo Ghiraldelli

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Ética e Moral por Paulo Ghiraldelli

Mensagem por Lewis K. em Sab 02 Out 2010, 18:35

ÉTICA E MORAL por Paulo Ghiraldelli Júnior – História da Filosofia dos Pré-Socráticos a Santo Agostinho

As virtudes antigas colocavam os homens na busca de honra e glória. Em geral, os gregos e romanos falaram em quatro virtudes básicas: coragem, justiça, temperança e sabedoria. Todas elas eram bastante objetivas, postas como exigência pública para cidadãos livres. Eram tão objetivas que Aristóteles e outros filósofos as dissecaram, mostrando seus aspectos básicos: o intelectual, o afetivo e o disposicional. Eram virtudes individuais, mas não necessariamente repousavam em uma instância subjetiva profunda, que deveria ser perscrutada. Eram virtudes visíveis, cultivadas pela educação, e elementos de distinção relativamente clara entre cidadãos. O papel dos filósofos, no caso, era o de estabelecer seus vínculos com a eudaimonia — e nisso divergiam. A coragem era central para os antigos, que eram povos guerreiros em um sentido especial: atacavam antes em nome de possíveis ataques futuros que poderiam tornar suas cidades escravas de outras. E também se defendiam bem, pois sabiam que não poderiam mais exercer quaisquer das virtudes se perdessem a liberdade de suas cidades, pois se tornariam escravos de outros ou cidadãos de segunda categoria em suas próprias cidades. A justiça era a da igualdade de penas. Uma humilhação era paga com a humilhação daquele que antes humilhou. Quem melhor fizesse isso, na medida exata, era o justo. A temperança não era fácil de se conseguir, pois se tratava do autocontrole, tão solicitado por escolas de filosofia do helenismo tardio, e a maior parte delas dizia seguir Sócrates nisso. Por fim, a sabedoria não era a inteligência teórica apenas, a que conhece aphysis ou a que entende e elabora melhor o fomos, mas a que conhece a physis e o fomos, isto é, o que é natural e o que é convencional, mas conhece isso em função daphronesis, a arte de deliberar bem, de saber decidir e escolher — certa prudência, certa inteligência, a habilidade de decidir. A filosofia se exerceu ora apoiando ora contestando essa cultura. Mas nunca a abandonando. Ora, essas virtudes deixaram de existir no mundo medieval cristão. As palavras continuaram a existir, mas elas ganharam outra conotação. Assim, a honra e glória antigas foram deixadas de lado, ou passaram na máquina semântica de moer da religião judaico-cristã. Foram todas transferidas para o “interior” do indivíduo. Aliás, um “interior” que, sendo interior, passou a requisitar o “exterior”. A dualidade pouco clara entre a alma e o corpo dos antigos passou a abrigar mais que uma distinção de funções, mas uma dicotomia de lugares constituídos por paredes feitas de substâncias distintas e ligadas a mundos distintos; o corpo ganhou de fato a casa terrena, a alma, o direito de poder experimentar as soleiras da “casa celestial do pai”, e um dia, após a morte, atravessar a soleira e então, de fato, viver com o pai (se isso poderia implicar a entrada do corpo também, como fez Jesus, foi motivo de controvérsia). Desse modo, no aparecimento da dicotomia corpo-alma como dicotomia exterior-interior, as palavras ligadas ao comportamento perderam o caráter propriamente estético que possuíam, o que dava a característica da ética, e passaram a ser subsumidas à “questão do coração” (a metáfora para alma, exatamente para mostrar seu caráter interno). E o que era o coração? Não era um órgão da inteligência, mas da vontade do homem ou de relação com esta. Essa vontade passou a ser o campo de desígnios do homem para si mesmo e para outros. Então, surgiram as prioridades subjetivas e, enfim, os preceitos morais, que agora teriam de encontrar justificação em si mesmo, e não mais na relação com a cidade; essas novas regras deram as características básicas para o novo homem — o homem medieval. No mundo antigo, uma falta ética era uma falta ética, ou seja, um descompromisso com o ethos, um estranho comportamento de desentendimento dos costumes e hábitos coletivos, e também o descuido do temperamento individual em se manter como espelho da cidadania e, então, reflexo do comportamento coletivo e político. No mundo medieval e, mesmo em sua entrada, nos tempos de Agostinho e Boécio, começou a ficar mais difícil falar em ética. Ficou mais fácil falar em... moral. Ou melhor, foi no mundo medieval que se passou a falar em moral, pois foi na porta deste mundo que a palavra foi inventada. Moral vem de mores, uma palavra latina para apontar o que era o temperamento, a parte “interior” do ethos, que era uma palavra grega. No mundo medieval uma falta moral era, de fato, uma falta moral, uma quebra com o mores. Uma falta ética seria ou não entendida como tendo algum sentido, dependendo do caso, ou tomada como pouco importante. Ficou um tanto estranho se importar com o ethos em um mundo em que todos haviam se tornado filhos de todos e irmãos de todos, de fato, pelo enorme cruzamento de etnias, mas também pelo fato de todos serem irmãos de todos, uma vez que todos eram filhos do único pai, o deus celestial. Os medievais passaram a ter muito mais faltas morais que éticas. Eles consultavam sua intimidade para saber se pecaram ou não. É claro que Santo Agostinho ainda falava em “cidade”.4 Ele chamou a atenção dos cristãos de modo que eles seguissem, na cidade espiritual, a mesma paixão que os romanos sentiam em relação à cidade terrena, ao Império. Agostinho tentou fazer com que os pagãos entendessem que poderiam transferir o sentimento de patriotismo para a cidade espiritual, o reino de Deus. Todavia, a verdade é que o patriotismo evocava o orgulho e a diferença — ser romano e não ser bárbaro não era algo para se jogar fora. A cidade espiritual tinha um problema: todos ali eram cidadãos. Os que não eram cidadãos haviam sido desterrados, eram os anjos rebeldes. Isso era de difícil compreensão para a mentalidade pagã. Não à toa a Igreja se hierarquizou e estendeu essa hierarquia terrena para a hierarquia celeste, podendo então ser mais bem compreendida pela mentalidade aristocrática, pelas elites romanas que, enfim, demoraram mais que os pobres a se converter ao cristianismo.
Feito isso, outros poucos passos foram necessários para se completar a revolução cristã. E o tema da cidade veio a calhar. O que os gregos e romanos viam como virtudes, os medievais tenderam a usar com os mesmos nomes, mas em um sentido crescentemente psicologizado. A idéia de “amor a Deus” se manifestava no amor aos semelhantes, e esse amor estava relacionado com a idéia de perdão, de dar a outra face. Afinal, na doutrina cristã tudo que se faz aqui na Terra é para merecer o perdão e o amor do pai celestial, e então poder viver, após a morte, com esse pai. Ora, esse tipo de doutrina trouxe uma revolução semântica que não é explicada apenas pela troca do grego para o latim e deste, mais tarde, para as línguas hoje ditas nacionais. O que ocorreu foi uma modificação de sentido profundo do comportamento lingúístico, em comunhão com mudanças gerais de comportamento. Os antigos — e seus filósofos — eram cidadãos de cidades, solitárias ou imperiais, e podiam ser menos ou mais cosmopolitas. Os medievais não tinham mais cidades para a referência; o cosmopolitismo cristão que imperou levou a cidadania para outro lugar: todos na Terra deveriam estar preocupados com a cidade dos céus. Nessa cidade as regras de convívio não importariam, pois se estaria bem nela se as regras de conduta da alma fossem corretas. Optou-se pela simplicidade: “O amor é a única lei”5 tornou-se vigente, e tudo ficou mais fácil; uma lei única poderia sempre ser ensinada rapidamente e cobrada rapidamente, em vez de uma legislação social complicada, a dos governos gregos e romanos. Com isso, houve de fato uma negação da cidade terrena. Diferentemente dos antigos, que estetizaram a vida, os medievais, uma vez cristãos, passaram para a renúncia do mundo, quando não, da vida.
avatar
Lewis K.

Feminino Mensagens : 332
Idade : 22

Ver perfil do usuário http://portalhf.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum