Tipos e Mitos do Pensamento Brasileiro

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Tipos e Mitos do Pensamento Brasileiro

Mensagem por Lewis K. em Sab 12 Fev 2011, 13:22

O Brasil pode ser visto como um país, uma sociedade nacional, uma nação ou um Estado-Nação, em busca de conceito. A despeito de quem tem nome e história, território e fronteiras, bandeira e hino, população e governo, heróis e santos, memórias e esquecimentos, glórias e sofrimentos, ruínas e monumentos, debate-se contínua e periodicamente no sentido de conhecer-se, definir-se, estabelecer o seu lugar no mapa do mundo: Europa, África ou Novo Mundo; branco, mestiço, indígena ou negro; arcaico ou moderno; autêntico ou errático; pretérito ou futuro; do terceiro mundo ou a caminho do primeiro mundo; cujo nome pode ser o de um país, vegetal ou mercadoria.

Este o estado de espírito ou a mentalidade que permeia as muitas inquietações de uns e outros, levando-os a buscar a fisionomia, o modo de ser, a realidade, os dilemas e as perspectivas da sociedade brasileira, do povo brasileiro, do Brasil como Estado-Nação. São muitos os que se perguntam qual pode ser a sua fisionomia, a sua explicação ou o seu conceito. Perguntam-se sobre qual pode ser o "norte", ou a direção, já que se repetem os impasses, as reorientações, os progressos e os retrocessos.

Este o clima que permeia boa parte das interpretações sobre o Brasil. Entre as muitas interpretações mais ou menos abrangentes, assim como aquelas relativas a problemas que parecem muito particulares, há sempre algo que se pode definir como uma inquietação sobre o que foi, o que tem sido e o que poderá ser o país; como se fosse uma nebulosa informe, ao acaso, em busca de articulação e direção.

Alguns estudos e algumas narrativas são bastante representativas dessas inquietações e interrogações. Vale a pena relembrar alguns: Tavares Bastos, A Província; Silvio Romero, História da Literatura Brasileira; Joaquim Nabuco, O Abolicionismo; Raul Pompéia, O Ateneu; Euclides da Cunha, Os Sertões; Lima Barreto, O Triste Fim de Policarpo Quaresma; Oliveira Vianna, Evolução do Povo Brasileiro; Mário de Andrade, Macunaíma; Paulo Prado, Retrato do Brasil; Graciliano Ramos, Vidas Secas; José Lins do Rego, Fogo Morto; Caio Prado Jr., Evolução Política do Brasil; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil; Gilberto Freyre, Interpretação do Brasil; Raimundo Faoro, Os Donos do Poder; Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa; Clovis Moura, Rebeliões da Senzala; Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira; Alfredo Bosi, Dialética da Colonização; Celso Furtado, Brasil: A Construção Interrompida.

São várias as inquietações, interrogações ou mesmo interpretações que se elaboram nesses e em outros estudos e narrativas, destinados a esclarecer a história, descrever as épocas, explicar as raízes ou descobrir as perspectivas do país, sociedade nacional, povo ou Estado-Nação.

São várias as linhas de pensamento ou mesmo as "famílias" de explicações do Brasil. São linhas ou famílias que se desenvolvem, recriam ou apenas reiteram. Mas já estão presentes e evidentes em muitos estudos e narrativas. Desenham-se como se fora uma ampla, policrônica e polifônica cartografia do imaginário brasileiro. Vale a pena registrar algumas, ainda que de forma breve.

a) No Brasil, o Estado constitui a sociedade civil, já que esta seria pouco organizada, dispersa, gelatinosa, de tal maneira que o Estado se constitui em demiurgo da sociedade, realizando a sua articulação e direção, promovendo a mudança e tutela, sempre de conformidade com o descortínio das elites.

b) O Brasil seria um país cuja história está amplamente determinada pelos movimentos e exigências dos mercados externos, desde o colonialismo e o imperialismo ao globalismo, definindo-se por diferentes modalidades de sua inserção dos mercados externos.

c) O Brasil é visto como um país patriarcal, marcado pelo patriarcalismo que se forma e desenvolve no curso dos séculos de escravismo, com desdobramentos no coronelismo, caciquismo, oligarquia; tudo isso no âmbito de algo denominado lusotropicalismo, sem esquecer a contínua e reiterada associação, mescla ou confusão entre o privado e o público.

d) O Brasil se singulariza por ser uma "democracia racial", a despeito dos séculos de regime de trabalho escravo e da forma pela qual são tratados prática e ideologicamente o índio, o negro, o árabe, o japonês, o polonês e outros, indivíduos e coletividades deste singular "laboratório racial".

e) O Brasil tem sido visto como um país que se destaca por sua "história incruenta", uma história de "revoluções brancas", na qual floresce a "democracia racial", tudo isso "lusotropical".

Essas e outras interpretações, sempre acompanhadas de inquietações e interrogações, permitem reafirmar a hipótese de que o Brasil é uma nação em busca de conceito, uma nebulosa movendo-se no curso da história moderna em busca de articulação, direção.

Vale a pena ressaltar uma das interpretações, também original e marcante, entre as que se sucedem e repetem em diferentes estudos, monografias, ensaios e narrativas literárias. Trata-se da visão do Brasil, de sua história, como uma constelação de tipos, com alguns dos quais se constroem tipologias, sendo que, em alguns casos, desdobram-se em mitos e mitologias.

A perspectiva "tipológica" focaliza a realidade social ou a história do país em termos principalmente culturais, com nítidos ingredientes psicossociais. E focaliza a sociedade, a política e a cultura, seja em termos de estudos de ciências sociais, seja em termos de narrativas literárias, como setores ou círculos que podem ser tratados separadamente, nos quais haveria dinâmicas próprias, certa autonomia. É como se a história do país se desenvolvesse em termos de signos, símbolos e emblemas, figuras e figurações, valores e ideais, um tanto ou muito alheios às relações, processos e estruturas de dominação e apropriação com os quais se poderiam revelar mais abertamente os nexos e os movimentos da sociedade, em suas distintas configurações e em seus desenvolvimentos históricos.

Sim, o que se depreende dos múltiplos tipos que povoam o pensamento social brasileiro, em suas versões científicas, literárias e dos diferentes setores sociais, em suas atividades e fabulações, é que levam consigo uma forte conotação cultural, com acentuados ingredientes psicossociais. Aí entra o "homem cordial", no sentido de fortemente determinado pelas emoções, a subjetividade, o coração (córdis), um tanto alheio ou mesmo avesso ao "racional". Aí também entram o "bandeirante", o "índio, o "negro", o "imigrante", o "gaúcho", o "sertanejo", o "seringueiro", o "colonizador", o "desbravador", o "aventureiro", "Macunaíma", "Martim Cererê", "João Grilo", a "preguiça", a "luxúria", "Jeca Tatu", as "três raças tristes", a política de "conciliação", a tese das "revoluções brancas". Assim também florescem as figuras e as figurações, os mitos e as mitificações de "Lampeão", "Padre Cícero", "Antonio Conselheiro", "Tiradentes", "Zumbi" e outros, reais e imaginários. São muitos os tipos e os mitos que povoam os estudos e as narrativas, as realidades e as fantasias, compondo uma vasta cartografia.

Esta linha interpretativa está fortemente marcada pelos escritos de Sérgio Buarque de Holanda e conta com contribuições notáveis de Ribeiro Couto, Graça Aranha, Paulo Prado, Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e outros. Aí pode haver ressonâncias de escritos de Sílvio Romero, Rui Barbosa e, anteriormente, José de Alencar, Gonçalves Dias. Mas cabe observar que essa visão da história do Brasil impregna também escritos de vários autores da Semana de Arte Moderna de 1922. Sem esquecer os muitos estudos de ciências sociais, que se multiplicam posteriormente, conferindo a alguns tipos e mitos outras e novas modulações.

Mais uma vez, cabe reconhecer que cada interpretação do Brasil nasce de um dado clima intelectual, envolvendo questões e tensões que flutuam no ar e desafiam uns e outros. O clima que Sérgio Buarque de Holanda traduz no desenho de o "homem cordial" é o mesmo em que se gestou "Macunaíma", "Martim Cererê", "preguiça", "luxúria" e "Jeca Tatu", conforme os escritos de Mario de Andrade, Cassiano Ricardo, Paulo Prado e Monteiro Lobato, entre outros.

Na história do pensamento brasileiro debruçado sobre a sociedade e sua cultura, são freqüentes e, às vezes, notáveis os tipos que se criam e recriam, taquigrafando a difícil e complexa realidade. Assim, a história aparece como uma coleção de figuras e figurações, ou tipos e mitos, relativos a indivíduos e coletividades, a situações e contextos marcantes, a momentos da geohistória, que se registram metafórica ou alegoricamente. Esclarecem ou ordenam o que se apresenta complexo, contraditório, difícil, como é habitualmente a realidade histórico-social, em suas formas de sociabilidade e em seus jogos de forças sociais.

Na história, geografia, antropologia, sociologia, ciência política, psicologia, teatro, romance, poesia e outras linguagens, são freqüentes as construções típicas. Algumas são rentes ao universo empírico, outras captam tipos "medianos", mas há as que elaboram tipos "extremos" e tipos "ideais". Poderiam ser tomados como naturalistas, realistas, impressionistas, surrealistas ou de outros estilos. São taquigrafias de uma história difícil.

Note-se que diversos tipos possuem algo em comum, revelam proximidades e semelhanças, dando a impressão de que se compõem como se fora uma "família" ou "linhagem". Estes são os que se revelam aparentados, ou mesmo reciprocamente referidos: "homem cordial", "Macunaíma", Martim Cererê", "Saci Pererê", "Pedro Malazarte", "preguiça", "luxúria", "Jeca Tatu". Talvez sejam somente expressões ocasionais e soltas, ou fantasias da imaginação. Mas também é possível reconhecer que têm raízes na sociedade, cultura e história, desde uma dada perspectiva intelectual, um dado estilo de pensamento.

Note-se que os tipos e mitos parecem bastante enraizados na formação sociocultural, político-econômica e psicossocial brasileira. Aí entram tradições indígenas, africanas e portuguesas, além de outras menos fortes, até fins do Século XIX. São tradições, práticas, valores, ideais, mitos e fantasias muito presentes em uma sociedade em que se manifestam, desde os seus primórdios: o "animismo", o "fetichismo", a "pajelança", o "candomblé", a "umbanda", a "quimbanda", o "espiritismo" popular, o "catolicismo" rural e outros traços mais ou menos notáveis de origem não só indígena, africana e portuguesa, mas também ibérica e mediterrânea. Há todo um vasto, complexo e mágico substrato cultural "pagão" na formação da sociedade brasileira, entrando pelo Século XX e continuando evidente no Século XXI. Este, muito provavelmente, o contexto histórico, social e cultural em que se produz a "matéria" de criação de tipos e mitos, bem como das suas articulações em "famílias" ou "linhagens". Neste sentido é que tanto "Macunaíma" como o "homem cordial" podem pertencer à mesma "estirpe". Podem ser fórmulas mágicas de exorcismo e sublimação, por meio das quais se decantam séculos de escravismo, castas e alienação.

Cabe reconhecer, no entanto, que esta família de tipos aponta para o descompromisso, a informalidade, a liberdade inocente, o trabalho como atividade lúdica, o descompromisso com a disciplina, a rejeição do trabalho como obrigação, a sociabilidade solta, imprevisível. São traços do homem cordial, Macunaíma, Martim Cererê; convivendo com a preguiça e a luxúria, a madorra indolente de Jeca Tatú.

É muito sintomático que essas figuras e figurações sejam formuladas e vividas em uma sociedade na qual houve praticamente quatro séculos de escravismo. Há aí, portanto, um dilema: em uma sociedade em que o trabalho é visto como atividade subalterna, escrava, de casta inferior, outra raça, quando se dá a abolição do escravismo coloca-se o desafio premente e urgente de redefinir o trabalho, conferindo-lhe dignidade, considerando-o atividade indispensável, dignificante, com o qual se expressa a dignidade do indivíduo e da sociedade, resultando em riqueza e prosperidade, principalmente para os proprietários dos meios de produção, a burguesia em formação. Em larga medida, esse é o ideário do movimento abolicionista, presente em O abolicionismo de Joaquim Nabuco, desdobrando-se em muitos dos discursos, crônicas, reportagens, editoriais e outros pronunciamentos comemorativos do 13 de maio de 1888.

Ocorre que o escravismo entra em declínio e termina como regime de trabalho escravo, forçado, compulsório, subordinado, totalmente alienado. Simultaneamente intensifica-se a migração de europeus, enquanto "braços para a lavoura", destinados a substituir o escravo e, simultaneamente, "branquear", "europeizar" ou "arianizar" a população, a sociedade, a cultura, a civilização. De repente, toda uma cultura do trabalho como atividade do "trabalhador escravo" precisa ser abandonada ou redefinida em termos do trabalho como atividade do "trabalhador livre". De repente, todos são desafiados a redefinir a ética do trabalho. Desenvolve-se um vasto e complicado processo sociocultural, psicossocial e ideológico destinado a conferir dignidade ao trabalho e ao trabalhador. Daí os tipos, como estereótipos sátiros, irreverentes e críticos, inocentes e negativos, com os quais se taquigrafam e exorcizam traços, figuras e figurações, ou modos de ser, que a nova ideologia dominante rejeita. É claro que o "homem cordial", "Macunaíma", "Pedro Malazarte" e "Jeca Tatu", lembrando a "preguiça" e a "luxúria", levam consigo várias e notáveis significações, participando da composição e movimentação do imaginário da sociedade e dos seus diferentes setores sociais, em diferentes modulações. Mas também é possível reconhecer que pode haver algum parentesco entre o "homem cordial" e "Macunaíma", entre outros, lembrando a "preguiça" e a "luxúria", enquanto figuras e figurações com as quais também se satanizam valores, ideais e modos de ser que floresceram nas cercanias da casa grande, longe das senzalas. O que está em causa, implícita, subjacente ou evidente, é a gênese da nova ética do trabalho como atividade dignificante. Por isso é que "Jeca Tatu" sofre tanto.

Em muitos casos, torna-se difícil, ou mesmo impossível, distinguir o "tipo", enquanto explicação do "mito", enquanto fórmula ideológica de reiteração. São freqüentes os casos de metamorfose do tipo em mito. À medida que se reiteram as formulações, oralmente e por escrito, já que alguns textos notáveis são lidos e relidos, comentados e repetidos, pode ocorrer um processo de ideologização ou reificação. O conceito pode adquirir uma abrangência e uma constância que transcende bastante, ou muitíssimo, o contexto ao qual estaria originariamente referido. A partir de certo momento, "Macunaíma" pode revelar-se um mito, tanto quanto o "homem cordial", ou a política de "conciliação", tanto quanto a "revolução branca". Esta é uma metamorfose que pode ocorrer e tem ocorrido com muitos conceitos das ciências sociais, em diferentes sociedades e épocas.

No caso da sociedade brasileira, às vezes tem-se a impressão de que a sua história se traduz e se reduz a uma coleção de mitos originários de tipos que teriam sido elaborados no empenho de "compreender" ou "explicar situações, acontecimentos, dilemas, perspectivas. Diante da realidade histórico-social complexa e problemática, elaboram-se tipos com os quais a realidade se revela inteligível. Aos poucos, no entanto, pode ocorrer a ideologização ou reificação, o que promove a metamorfose do tipo em mito. Então, acentua-se a distância entre a realidade e o tipo e, mais ainda, entre a realidade e o mito. Assim, a realidade desloca-se, afasta-se, evapora-se, torna-se inofensiva.

Esta é a idéia: o percurso da reflexão, em busca da "compreensão" ou da "explicação", pode levar consigo algo, ou muito, de ficção. A realidade transfigura-se em conceito e categoria ou em metáfora e alegoria. Estas metamorfoses são freqüentes, às vezes inevitáveis. Há sempre algum contraponto entre elas. Aliás, são freqüentes os casos de metáforas que adquirem o significado de conceitos, assim como há casos em que conceitos se transfiguram em metáforas. Mas é inegável que essas podem ser modulações do conhecimento. Sim, a metáfora e a alegoria também podem ser formas de conhecimento, meios e modos de alcançar o esclarecimento.

Sim, os tipos e os mitos podem ser formas de conhecimento, modulações do discernimento, sem prejuízo de outros significados e conotações. Podem ser signos, símbolos ou emblemas, conceitos ou metáforas, categorias ou alegorias, com os quais se taquigrafam situações, acontecimentos e impasses ou fabulações, exorcismos e sublimações. Em todos os casos, há sempre alguma contribuição para o conhecimento da realidade e seu imaginário tanto para o seu desvendamento como para o seu encobrimento. Mesmo quando uns e outros enfatizam apenas aspectos da situação ou acontecimento, mesmo esquecendo outros aspectos, ainda assim, nesses casos, ocorre alguma forma de esclarecimento.

Há tipos e mitos com os quais se revela alguma forma de "carnavalização" da situação, acontecimento ou impasse. É óbvio que "Jeca Tatu", "Macunaíma" e até o "homem cordial" podem ser vistos com signos de denúncia, ênfase distorcida, caricatura do que poderia ser o "brasileiro", a "identidade do brasileiro", o "símbolo" de uma população que se demora a adquirir a figura de "povo", a figuração de "cidadão". Podem ser sátiras com as quais os "novos tempos" rejeitam os "velhos tempos", o "presente rejeitando o "passado", o "moderno" caricaturizando o "arcaico". São taquigrafias com as quais se parodiam, rejeitam ou carnavalizam os indivíduos e as coletividades que se teriam formado no longo da história. Mais ainda porque o homem cordial, Jeca Tatu e Macunaíma são emblemas de um mundo no qual o "trabalho" é castigo, sofrimento, danação e alienação, tudo isso naturalizado ou ideologizado pela cultura de castas formada ao longo da história da escravatura. Os três emblemas, em diferentes entonações, deixam escapar um estado de ânimo muito significativo: "ai que preguiça", desde logo com alguma ou muita "luxúria". O novo ciclo de desenvolvimento da sociedade, com o término da Monarquia e da Escravatura, depende de outras formas de organização técnica e social do trabalho e da produção, da divisão do trabalho social, da organização jurídico-política da sociedade como um todo, compreendendo a metamorfose do "trabalho escravo" em "trabalho livre", da população em "povo" e do súdito em "cidadão".

Outros tipos e mitos contribuem para taquigrafar, organizar e administrar uma sociedade civil incipiente, pouco articulada, na qual se mesclam negros ou ex-escravos, nativos ou índios, imigrantes europeus trazidos como "braços para a lavoura" e muitos outros, indivíduos e coletividades compondo grande parte da sociedade, dos setores sociais subalternos, bem como os setores sociais dominantes, descendentes da casta dos senhores e conquistadores, assim como outros indivíduos e grupos sociais que também passam a fazer parte das classes dominantes, advindos de empresas, agências, organizações de outras nações; colonialismos, imperialismos e globalismos. Está em curso a transformação das castas em classes tanto dominantes como subalternas. Este o contexto em que se formulam os tipos sociais e as suas mitificações, expressos em termos de "democracia racial", "índole pacífica do povo brasileiro", "revoluções brancas", "conciliação e reforma", entre outros. O que está em causa é "despolitizar" a sociedade civil em formação, defini-la e organizá-la desde cima, tomá-la como pouco ativa e pouco organizada, gelatinosa, carente de tutela. Daí o Estado forte, demiurgo, oligárquico, autoritário e tirânico. Tudo isso como expressão de uma cultura política arrogante e opressiva, produzida no curso de séculos de escravismo. Daí por que amplos setores das classes dominantes, ou suas "elites", continuam a agir no mando e desmando das coisas públicas e privadas como desfrutadores, colonizadores, conquistadores.

Mais uma vez, vemos que os tipos e os mitos do pensamento e da cultura brasileiros não são inocentes. Revelam muito do que são as configurações e os movimentos da sociedade, em diferentes perspectivas, em distintos momentos. Podem ser vistos como coleções de figuras e figurações, às vezes famílias ou linhagens de interpretações, com os quais se desenha e movimenta uma cartografia do Brasil, de tal modo que este parece situado, organizado, compreendido, explicado e decantado.




* Este texto é uma palestra que integrou o Seminário Temático "Cultura e Arte na Sociedade Contemporânea", apresentado no XXV Encontro anual da ANPOCS, realizado de 16 a 20 de outubro de 2001, em Caxambú.
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Lewis K.

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