O peso de chumbo da totalidade

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O peso de chumbo da totalidade

Mensagem por Convidado em Qua 06 Abr 2011, 17:47

O peso de chumbo da totalidade


Roberto DaMatta

A individualidade, a consciência de si e de um espaço interno repleto de emoções, culpa, inveja e pensamentos inusitados, a noção de estar só e apartado de um grupo é certamente uma experiência universal e pode ser encontrada em qualquer sociedade humana. Mas o individualismo, ou a ideia de que os indivíduos que constituem um grupamento humano são o centro do sistema que deve curvar-se diante de suas vontades e ser por elas governado, é algo relativamente novo na história da humanidade. Alguns historiadores das ideias traçam o seu surgimento no contratualismo inglês do séc. XVII, uma teoria que vê a vida social como decorrência das interações entre os cidadões-individuos que formam, como um clube, a sociedade.
O individualismo difundiu-se pelo mundo e encontrou nova alma e índole nos Estados Unidos que , como o nome bem revela, trata-se de uma totalidade social explicitamente constituída por Estados relativamente autônomos que “decidem” se unir para formar “union” ou um coletivo maior e mais inclusivo, num pacto político eminentemente moderno e republicano. Tal como os indivíduos abrem comum, assim fizeram os “Estados originais” os ex-territórios que hoje constituem os Estados Unidos.
Implementado como doutrina política e como um estilo de vida ou sistema cultural, o individualismo leva a imaginar que se vive sozinho, como uma ilha ou como as estrelas da bandeira americanas, geometricamente ordenadas e iguais em tamanho e importância. De fato, nada é mais revelador da índole americana do que o ditado que diz: mind your own business” (meta-se no seu próprio negócio), “live and let live” (sem compromisso pessoal), é indicativo de uma moralidade voltada para o interior de cada um , avessa em principio em valorizar , relações e, com elas, o dar e o receber.
Esse princípio permeia a vida americana e, do ponto de vista brasileiro, cuja vida social decorre orientada por valores opostos, pois, para nós, viver é relacionar-se, meter-se na vida alheia, fofocar e, sobretudo, pertencer, eles são duros de pôr essa prática, sobretudo, de vivenciar.
Pois bem, tudo isso é para observar como a bárbara destruição das torres e de parte do pentágono tem promovido a súbita e milagrosa descoberta dos sentimentos coletivos nesses Estados Unidos americanos. [O autor refere-se ao atento de 11 de setembro de 2001, em que terroristas sequestaram aviões comerciais e os lançaram contra as duas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, causando milhares de vítimas. As torres eram símbolo do poderio econômico dos Estados Unidos, pois lá funcionavam grandes empresas que movimentam grandes quantias. A autoridade do referido atentado foi atribuída a Osama Bin Laden, muçulmano, líder do movimento Al Qaeda, e gerou os ataques dos Estados Unidos ao Afeganistão, onde supostamente Bin Laden estaria escondido.] E que peso têm esses sentimentos num sistema que se pensava como divorciado do mundo e de si mesmo. De certo modo, o que caiu com o ataque terrorista não foi somente às torres gêmeas, mas a certeza plana numa vida social autônoma e reclusa, como se a compartimentalização individualista fosse um escudo inviolável contra o sofrimento e a morte.
[...] Subitamente, todos se deram conta de que eram americanos e que o coletivo exigia mais do que pagar impostos, seguir as regras de trânsito e enviar cheques caritativos pelo correio. A gigantesca proporção, a brutalidade e a irracionalidade do ataque deram uma medida do ódio e da ousadia do inimigo.
Ademais, a identidade como o sofrimento dos semelhantes, a empatia imediata com sua dor, a compreensão instantânea dos seus gestos e sentimentos trouxeram de volta esses relacionamentos insuspeitos que constroem as exigências coletivas. De repente, os americanos viam-se a si mesmos como diversificados e livres para escolher, não tiveram escolha a não ser a de assumir sua coletividade.


DAMATTA, Roberto. O peso de chumbo de totalidade. O Estado de S.Paulo, 25 out. 2001.


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