O Campo e a Cidade na Renascença

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O Campo e a Cidade na Renascença

Mensagem por Lewis K. em Sex 22 Abr 2011, 17:38

Nos tempos da Renascença, a cidade fora sinônimo de civilidade, o campo de rudeza e rusticidade. Tirar os homens das florestas e encerra-los em uma cidade era o mesmo que civiliza-los. O fidalgo criado na cidade seria mais civilizado que um educado no campo. A cidade era o berço do aprendizado, das boas maneiras, do gosto e da sofisticação, era a arena da satisfação do homem. Adão fora colocado em um jardim e o paraíso associado a flores e fontes.Mas quando os homens pensavam no paraíso da salvação, geralmente o visualizavam em uma cidade. Séculos a fio, a cidade e os muros simbolizavam segurança, e era vista como tranqüila até pelos viajantes. A segunda indicação de mudança nas sensibilidades foi uma crescente reação contra o ininterrupto avanço das fronteiras agrícolas. Isso representava uma notável modificação das atitudes anteriores. Para os propagandistas agrícolas dos séculos XVI e XVII, as charnecas, montanhas e pântanos não lavrados eram o símbolo vivo do que merece ser condenado. o aprimoramento e a exploração agrícolas não eram apenas economicamente desejáveis; constituíam imperativos morais. Deus criara a terra, declarava o elisabetano sir George Peckham, "para que ela pudesse, por meio do cultivo e da lavoura, dar coisas necessárias à vida do homem". Ele "concedera a terra ao homem para ser cultivada e polida por ele", concordava Edward Hyde, conde de Clarendon. O amanho do solo simbolizava a civilização, ao passo que as "terras agrestes e vazias", "obstruídas por moitas [e] urzes", eram "como um caos disforme". Um terreno não cultivado, refletia Timothy Nourse em 1700, era "a suma exata da natureza degenerada" . Essa paisagem cultivada distinguia-se por suas formas cada vez mais regulares. A aradura sempre trouxera simetria; e qualquer lavrador quinhentista teria entendido o encantamento de William Cobbett ao ver um sulco de cerca de quatrocentos metros tão reto como se traçado com um nível. A prática de plantar cereais ou vegetais em linhas retas não era apenas um modo eficiente de aproveitar espaços escassos; também representava um meio agradável de impor a ordem humana ao mundo natural desordenado. Logo, no entanto, Imersos em fumaça, aturdidos com perpétuo barulho", 15 não surpreende que os habitantes urbanos viessem a ansiar pelas delícias imaginadas da vida rural. Por essa época, os moradores das cidades já começavam a idealizar a cabana do campo, com seu teto de colmo, sua fumaça espiralada e as rosas em redor da porta. Até a religião desempenhou sua parte na formação desse novo gosto pela vida rural. "Após a década de 1640", escreve um historiador literário, "o retiro rural já não era uma simples defesa contra o mundo corrupto; era um portão aberto para o Paraíso antes da Queda". O campo era retratado como um lugar mais virtuoso que a cidade; e boa parte da literatura devota do século seguinte exibia o que o poeta John Clare chamava "a religião dos campos". Quando caminhava pelo campo - dizia o jovem poeta Henry Needler -, "meus pensamentos naturalmente tomam um rumo solene e religioso". Samuel Pepys, que em 1667 recordava sua fascinação ao encontrar um autêntico pastor rural e seu menino nas chapadas próximas a Epsom, "com suas meias de lã tricotadas de duas cores e [ ... ) seus sapatos calçados com ferro, tanto nas pontas como nos calcanhares, além de grandes pregos nas solas dos pés, o que era muito bonito". Como observaria o crítico setecentista Hugh Blair, o gosto pela pastoral somente surgiu depois de crescerem as cidades, pois os homens não ansiaram pelo campo enquanto viveram em termos de familiaridade cotidiana com ele. No entanto, os que iam para o campo por sua própria vontade muitas vezes achavam que um fim de semana já bastava. "Esse estado brutal chamado vida no campo", como o denominava o terceiro conde de Shaftesbury, era por demais maçante para os urbanos sofisticados. "As pessoas de melhor condição, constantemente habituadas a muita conversa", observava o quarto lord North, logo acham a solidão do campo aborrecedora. Quando o jovem John Locke retornou de Oxford para sua casa em Somerset, rapidamente se desiludiu: "Estou no meio de um conjunto de mortais que não sabem nada além do preço do trigo e da ovelha, que são incapazes de entreter um assunto diverso da engorda de animais ou do cultivo da terra e jamais agradecem a Deus por outra coisa senão um ano fértil ou toucinho gordo". Havia muitos outros para quem o tempo se arrastava penosamente no campo ou, como o antiquário William Stukeley, renunciavam inteiramente a viver nele por sentirem falta da conversa de temas literários que tinham em Londres.

THOMAS, Keith. O Homem e o mundo natural, São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 209-305
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Lewis K.

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